De Rosário ao último jogo pela Argentina, Lionel Messi atravessou gerações, acumulou recordes e títulos e transformou para sempre a história do futebol mundial
Durante mais de duas décadas, Lionel Messi transformou o extraordinário em rotina. O menino franzino de Rosário que deixou a Argentina aos 13 anos tornou-se campeão mundial, recordista, oito vezes vencedor da Bola de Ouro e protagonista de uma das carreiras mais influentes da história do esporte. Aos 39 anos, depois de disputar seis Copas do Mundo, o camisa 10 encerrou sua trajetória pela seleção argentina diante de mais de 85 mil pessoas no Monumental de Buenos Aires, mas sua história no futebol ainda continua.
Antes de erguer a Copa do Mundo e se tornar um dos maiores nomes da história do futebol, Messi precisou atravessar dúvidas, derrotas, cobranças e mudanças de país. De Rosário ao topo do mundo, sua trajetória é também a história de um jogador que nunca parou de se reinventar.
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Antes de Messi ser Messi: tudo começou em Rosário
Antes dos estádios lotados, das Champions League, das Bolas de Ouro e da Copa do Mundo erguida no Catar, existia apenas um menino e uma bola. Lionel Andrés Messi nasceu em 24 de junho de 1987, em Rosário, na Argentina. Ainda criança, começou a jogar no pequeno Abanderado Grandoli. Segundo relato da Associated Press, sua avó Celia teve papel decisivo naquele início: foi ela quem convenceu o treinador a colocar o garoto, menor que as outras crianças, em campo. Depois veio o Newell’s Old Boys, onde seu talento começou a ultrapassar as fronteiras do bairro.
Mas havia um obstáculo que nada tinha a ver com a bola. Messi foi diagnosticado na infância com deficiência do hormônio do crescimento e precisava de tratamento. O custo pesava para a família. Quando surgiu a oportunidade de tentar a vida no Barcelona, o clube catalão se dispôs a assumir o tratamento. Aos 13 anos, Messi atravessou o Atlântico para começar uma história que mudaria não apenas sua vida, mas também a do próprio Barcelona.

Barcelona: quando um jogador passou a representar uma era
Messi chegou a La Masia como promessa. Saiu do Barcelona como o maior artilheiro da história do clube. Sua estreia oficial pelo time principal aconteceu em 16 de outubro de 2004, contra o Espanyol. Em maio de 2005 veio o primeiro gol, diante do Albacete. A partir daquele momento, o futebol europeu começaria a assistir à construção de uma carreira quase sem precedentes. Foram 778 partidas e 672 gols pelo Barcelona, segundo os registros oficiais do clube. Mais do que números, porém, Messi tornou-se o centro de uma geração que combinou a escola de formação catalã com jogadores como Xavi, Andrés Iniesta, Sergio Busquets, Carles Puyol e, durante parte do caminho, Ronaldinho.
Sob o comando de Pep Guardiola, ganhou liberdade para circular pelo ataque e ajudou a aperfeiçoar uma função que marcaria o futebol moderno: a do atacante que sai da área para construir, organizar e depois reaparece para concluir. Messi não era apenas goleador. Era também armador. Driblava em espaços mínimos, acelerava com a bola colada ao pé esquerdo, encontrava passes onde aparentemente não existiam corredores e desenvolveu uma capacidade de decisão que fazia partidas importantes parecerem menores.
Em 2012, alcançou uma das marcas mais impressionantes de sua carreira: 91 gols em um único ano, recorde mundial no futebol de alto nível. No Barcelona, sua coleção inclui 10 títulos de LaLiga, sete Copas do Rei, quatro Champions League, três Mundiais de Clubes, três Supercopas da UEFA e oito Supercopas da Espanha.

Um jogador que também mudou a forma de atacar
Para compreender a dimensão de Messi, é preciso ir além dos troféus. Ele pertenceu a uma geração que mudou a maneira como grandes equipes pensavam posse de bola, movimentação e criação ofensiva. Mas havia algo particular em seu futebol: Messi conseguia desempenhar funções que normalmente seriam divididas entre diferentes jogadores. Era capaz de iniciar uma jogada no meio-campo, participar da construção e terminar a mesma jogada dentro da área.Durante anos, adversários tentaram responder à mesma pergunta: como marcar Messi?
Dobrar a marcação abria espaço para outro jogador. Esperá-lo permitia que acelerasse. Atacá-lo criava o terreno para o drible. O resultado foi um jogador que, durante seu auge, obrigou defesas e treinadores a elaborarem estratégias praticamente exclusivas para enfrentá-lo.
A Argentina: amor, cobrança e uma relação construída com o tempo
Curiosamente, a história de Messi com an Argentina não começou com uma consagração. Em 2005, antes mesmo de se firmar na seleção principal, ele comandou a equipe argentina no Mundial Sub-20. Marcou seis gols, fez os dois da vitória por 2 a 1 sobre a Nigéria na final e terminou o torneio com a Bola de Ouro de melhor jogador e a Chuteira de Ouro de artilheiro. Pouco depois veio a estreia na seleção principal. E foi caótica.
Contra a Hungria, em agosto daquele ano, Messi entrou no segundo tempo e recebeu cartão vermelho menos de um minuto depois de entrar em campo. O que parecia um início improvável seria apenas o primeiro capítulo de uma trajetória de 21 anos com a camisa argentina. Em 2008, conquistou o ouro olímpico em Pequim. Mas os grandes títulos da seleção principal demorariam.
Messi viveu derrotas em decisões importantes, incluindo a Copa do Mundo de 2014, diante da Alemanha, e as Copas América de 2015 e 2016, ambas contra o Chile. Depois da derrota de 2016, chegou a anunciar que não jogaria mais pela seleção. Ele voltou. E esse retorno mudaria completamente a maneira como sua história na Argentina seria contada.

2021: o peso que começou a desaparecer
A virada aconteceu no Maracanã. Em 2021, a Argentina derrotou o Brasil na final da Copa América e Messi finalmente conquistou seu primeiro grande título pela seleção principal. Depois vieram a Finalissima de 2022, contra a Itália, e o torneio que redefiniria definitivamente sua trajetória: a Copa do Mundo do Catar.
Catar 2022: a noite em que faltou apenas levantar a taça — e ele levantou
A Copa de 2022 começou da pior maneira possível para a Argentina, com uma derrota surpreendente para a Arábia Saudita. O torneio terminaria de forma completamente diferente. Messi fez sete gols e três assistências, marcou nas fases decisivas e chegou à final contra a França como líder técnico e emocional da equipe argentina. A decisão entrou imediatamente para a história das Copas. Argentina e França empataram por 3 a 3 após a prorrogação. Messi marcou duas vezes. Nos pênaltis, a Argentina venceu e conquistou seu terceiro título mundial.
Aos 35 anos, Lionel Messi finalmente levantava a Copa do Mundo. Ele também recebeu a Bola de Ouro do Mundial de 2022 e tornou-se o primeiro jogador da história a ganhar o prêmio de melhor jogador de uma Copa duas vezes — havia vencido também em 2014.

E Messi ainda voltou para outra Copa
Parecia que o Catar seria o capítulo final. Não foi. Em 2026, aos 39 anos, Messi disputou sua sexta Copa do Mundo e voltou a conduzir a Argentina a uma final. Durante o torneio realizado nos Estados Unidos, México e Canadá, acumulou novos recordes. Terminou a competição com 34 partidas em Copas do Mundo, maior número da história, e chegou a 21 gols em Mundiais. Apenas Kylian Mbappé, que encerrou a edição de 2026 com 22, ficou à frente na lista histórica de artilheiros.
Messi marcou oito gols e deu quatro assistências na Copa de 2026. A Argentina chegou novamente à decisão, mas perdeu por 1 a 0 para a Espanha na prorrogação, com Ferran Torres marcando aos 106 minutos. Era sua segunda derrota em uma final de Copa, depois de 2014. A diferença é que, desta vez, Messi já carregava no currículo aquilo que durante anos lhe haviam cobrado: o título mundial de 2022.

O último tango com a Argentina
Em 6 de outubro de 2026, o Estádio Monumental, em Buenos Aires, deixou de receber apenas uma partida de futebol. Recebeu uma despedida. Diante de mais de 85 mil torcedores, Argentina e Benin entraram em campo para o último jogo de Lionel Messi pela seleção. O roteiro parecia escrito para ele. A Argentina venceu por 3 a 0. Messi marcou de pênalti e participou diretamente dos outros dois gols com assistências. No fim, havia lágrimas dentro e fora do gramado. Ele encerrou a carreira pela seleção com números gigantescos:
208 partidas. 126 gols. 70 assistências. 135 vitórias.
É o maior artilheiro da história da Argentina e o jogador que mais vezes vestiu a camisa da seleção. Mas talvez seu maior feito tenha sido outro: transformar uma relação inicialmente marcada por cobrança e comparação com Diego Maradona em uma identificação quase absoluta com o torcedor argentino.

Paris: o intervalo entre duas revoluções
A saída do Barcelona, em 2021, foi uma ruptura difícil de imaginar. Messi passou então duas temporadas no Paris Saint-Germain. Foram 74 partidas, 32 gols e 35 assistências, segundo o próprio PSG. Na França, conquistou duas Ligue 1 e um Trophée des Champions. Não repetiu em Paris o vínculo construído durante décadas em Barcelona, mas aquele período coincidiu justamente com a maior conquista de sua carreira internacional: a Copa do Mundo de 2022.
Miami: Messi muda novamente o mapa do futebol
Em 2023, Messi tomou uma decisão que ampliaria sua influência para outro mercado. Escolheu o Inter Miami, nos Estados Unidos. Seu impacto foi imediato. Logo em sua primeira temporada, conduziu o clube ao título da Leagues Cup de 2023. Em 2024 veio o Supporters’ Shield. Em 2025, o Inter Miami conquistou a Conferência Leste e a MLS Cup. Em setembro de 2026, adicionou a Campeones Cup à coleção do clube. Em 16 de setembro de 2026, Messi chegou a 100 gols pelo Inter Miami em apenas 115 partidas.
E continuou acumulando prêmios: foi MVP da MLS em 2024 e 2025, tornando-se o primeiro jogador a conquistar a premiação em temporadas consecutivas, além de ter sido artilheiro da MLS em 2025 com 29 gols. Mesmo depois de encerrar sua história com a seleção argentina, portanto, Messi não se aposentou do futebol profissional. Seu contrato com o Inter Miami foi renovado até o fim da temporada 2028 da MLS.

Oito Bolas de Ouro e uma coleção quase sem paralelo
É impossível medir uma carreira apenas pelos prêmios individuais. No caso de Messi, porém, eles ajudam a dimensionar sua longevidade. O argentino conquistou a Bola de Ouro oito vezes: 2009, 2010, 2011, 2012, 2015, 2019, 2021 e 2023 — recorde da premiação. Também soma três prêmios The Best da FIFA, seis Chuteiras de Ouro europeias e duas Bolas de Ouro de melhor jogador da Copa do Mundo. E há uma curiosidade atual: Messi está novamente entre os 30 indicados à Bola de Ouro de 2026. O vencedor será anunciado em 26 de outubro.
Os grandes títulos de Lionel Messi
- Barcelona:
- 10 Campeonatos Espanhóis
- 4 Champions League
- 7 Copas do Rei
- 3 Mundiais de Clubes
- 3 Supercopas da UEFA
- 8 Supercopas da Espanha
- Paris Saint-Germain:
- 2 Ligue 1
- 1 Trophée des Champions
- Inter Miami:
- Leagues Cup de 2023
- Supporters’ Shield de 2024
- Conferência Leste e MLS Cup de 2025
- Campeones Cup de 2026
- Argentina:
- Mundial Sub-20 de 2005
- Ouro olímpico de 2008
- Copa América de 2021 e 2024
- Finalissima de 2022
- Copa do Mundo de 2022
Quem é Lionel Messi?
Lionel Andrés Messi é um atacante argentino nascido em Rosário, em 1987. Formado pelo Barcelona, construiu a maior parte da carreira na Espanha, passou pelo PSG e, desde 2023, defende o Inter Miami. Foi campeão mundial pela Argentina em 2022 e encerrou sua trajetória pela seleção em outubro de 2026.
Pop que Messi importa para a história do futebol?
Porque sua influência não cabe apenas nos números. Messi atravessou diferentes gerações, treinadores, países e maneiras de jogar sem deixar de ser protagonista. Foi revelado em um Barcelona que já era gigante, tornou-se o rosto do período mais vencedor do clube e depois conseguiu reconstruir sua própria narrativa com a seleção argentina. Por muito tempo, o debate em torno de Messi parecia depender de uma Copa do Mundo. Depois de 2022, essa discussão mudou.
O que ficou passou a ser a dimensão de uma carreira em que gols, passes, dribles e títulos coexistiram com uma capacidade incomum de permanecer no mais alto nível por mais de duas décadas. E 2026 acrescentou uma última imagem a essa história com a camisa albiceleste: Messi no Monumental, cercado pelos filhos, tentando conter as lágrimas enquanto mais de 85 mil pessoas se despediam do número 10. O futebol continuará discutindo quem foi o maior de todos. Mas uma coisa parece bem menos discutível: é impossível contar a história do futebol do século XXI sem reservar um capítulo inteiro para Lionel Messi.
