Entre estreias, retornos e projetos especiais, a edição de outubro aproxima diferentes gerações, territórios e maneiras de pensar a moda no Brasil
Há semanas de moda que apresentam roupas. Outras ajudam a organizar o modo como um país enxerga sua própria criação. O São Paulo Fashion Week pertence à segunda categoria. Ao reunir estilistas, marcas, artistas, modelos, fotógrafos, produtores e diferentes territórios criativos, o evento transformou a passarela em um palco de memória, negócio, imagem e cultura.
Entre os dias 13 e 18 de outubro, a SPFW N61 volta a movimentar São Paulo com 26 apresentações. São 24 marcas e dois projetos especiais, em um line-up que aproxima nomes históricos, criadores independentes, propostas artesanais, experimentações tecnológicas e estreias que chegam cercadas de expectativa. A nova temporada também prolonga a celebração dos 30 anos do SPFW, iniciada na edição N60. Mais do que olhar para o passado, o aniversário ajuda a dimensionar o tamanho da construção feita ao longo dessas três décadas.
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Paulo Borges e a criação de um calendário para a moda brasileira
É impossível contar essa história sem reconhecer o trabalho de Paulo Borges. Idealizador e diretor criativo do SPFW, ele ajudou a transformar apresentações antes dispersas em um calendário consistente, acompanhado pela imprensa, pelo mercado e por diferentes gerações de público. O que hoje conhecemos como São Paulo Fashion Week nasceu de movimentos iniciados com o Phytoervas Fashion, ganhou corpo com o Morumbi Fashion e se consolidou como a principal semana de moda do país. Nesse processo, Paulo Borges não criou apenas um evento. Ele ajudou a dar ritmo, continuidade e visibilidade à moda brasileira.
Ao sustentar uma força por três décadas, atravessando mudanças econômicas, digitais, estéticas e comportamentais, o criador do SPFW construiu um espaço no qual a roupa pode falar sobre identidade, território, desejo, indústria e futuro. Seu mérito está também na capacidade de manter a moda brasileira em movimento, mesmo quando o próprio setor precisou se reinventar.
Do Rio a São Paulo, a moda brasileira recupera seus grandes encontros
A temporada de 2026 também ganhou outro ponto importante em abril, quando o Rio Fashion Week realizou sua primeira edição no Pier Mauá e em outros endereços da cidade. O evento devolveu ao Rio de Janeiro uma parte exclusiva de grande porte dedicada à moda e reuniu marcas como Osklen, Misci, Dendezeiro, Apartamento 03, Normando e Hisha. O RioFW reforçou uma identidade ligada à paisagem, ao corpo, à cultura urbana e à energia carioca. Agora, alguns dos nomes que passaram pelo evento chegam ou retornam ao SPFW, criando uma ponte interessante entre os dois calendários.
A conexão não precisa ser entendida como uma disputa entre cidades. São Paulo carrega a continuidade de uma história ligada ao fashion, enquanto o Rio recupera sua presença institucional no setor. Juntos, os movimentos ampliam o espaço dedicado à criação brasileira e ajudam a fazer com que diferentes sotaques estéticos circulem pelo país.
As 26 marcas confirmadas no SPFW N61
O line-up da N61 mostra uma moda brasileira impossível de resumir em uma única tendência. Há espaço para alfaiataria, artesanato, moda praia, denim, tecnologia, upcycling, identidade amazônica, cultura afro-brasileira e experimentações que atravessam gênero, corpo e território. Conheça os participantes:
A À La Garçonne transforma referências urbanas, esportivas e vintage em uma moda de personalidade imediata. Seu repertório mistura peças utilitárias, proporções amplas, elementos gráficos e um olhar atento para o reuso. A marca encontra potência justamente no contraste entre o que parece bruto e o acabamento sofisticado. No SPFW, sua presença costuma interessar pela capacidade de converter códigos das ruas em imagem de passarela.
Criada por Ana Luisa Fernandes, a Aluf nasceu em 2018 e desenvolveu uma linguagem que aproxima moda, arte, arquitetura e sensibilidade. Texturas, volumes e matérias-primas naturais aparecem em construções que acompanham o corpo sem perder presença. A marca valoriza o processo artesanal e trata a sustentabilidade como parte da criação, não apenas como discurso. Na passarela, seu trabalho costuma revelar força por meio dos detalhes.
Amir Slama é um dos nomes que ajudaram a projetar a moda praia brasileira para além do país. Depois da trajetória construída com a Rosa Chá, o estilista seguiu desenvolvendo uma marca autoral marcada por recortes, estampas, sensualidade e atenção ao corpo. Seu retorno ao line-up reforça a presença de um criador que conhece profundamente a história do SPFW e entende o beachwear como moda, comportamento e identidade brasileira.
A Ammi faz sua estreia no SPFW sob a direção criativa de Amanda Felisberto. Criada em 2018, a marca aposta em peças feitas à mão e em uma ideia de luxo construída pelo tempo, pela técnica e pela relação com uma rede de artesãs. Crochês, transparências e superfícies elaboradas ajudam a formar uma imagem feminina, solar e contemporânea. A chegada ao evento coloca novas manualidades no centro da conversa.
Fundada por Luiz Cláudio Silva, a Apartamento 03 surgiu em Belo Horizonte e carrega no próprio nome a memória do espaço onde o estilista atendia suas primeiras clientes. A marca combina domínio técnico, alfaiataria, bordados e narrativas ligadas à identidade negra e à experiência brasileira. Suas roupas equilibram precisão e emoção, com uma elegância que não precisa se afastar das questões culturais para construir desejo.
À frente da Artemisi, Mayari Jubini aproxima alta moda, tecnologia e design escultórico. Impressão 3D, cristais, estruturas rígidas e superfícies futuristas fazem parte de um vocabulário visual reconhecível. A marca trata o corpo como espaço de experimentação e cria peças que podem ser lidas como roupa, objeto e performance. Seu retorno ao SPFW acrescenta uma camada tecnológica ao line-up sem abandonar a execução artesanal.
Criada pela cearense Celina Hissa, a Catarina Mina construiu uma trajetória baseada na colaboração com artesãs e na valorização de saberes manuais. Crochê, renda, palha e outras técnicas do Ceará aparecem em bolsas, roupas e acessórios que conectam tradição e desenho contemporâneo. A marca também se tornou referência em transparência produtiva, colocando em evidência as mulheres e as comunidades que participam da criação de cada peça.
- Cria Costura
O Cria Costura chega ao SPFW como um projeto especial dedicado à formação e à aceleração de talentos das periferias de São Paulo. A iniciativa combina capacitação técnica, desenvolvimento criativo e experiência de passarela, ampliando as possibilidades de entrada no mercado. Sua presença lembra que renovar a moda brasileira também significa abrir caminhos para quem historicamente ficou distante dos grandes calendários e das estruturas profissionais do setor.
Dario Mittmann faz parte de uma geração que cresceu misturando referências de moda, música, internet, jogos e cultura pop. Suas coleções transitam entre Oriente e Ocidente, fantasia e vida urbana, com sobreposições, volumes e personagens que parecem pertencer a universos próprios. Ao vestir artistas da música e transformar cada coleção em narrativa, o estilista mostra que a passarela também pode funcionar como cenário para novos imaginários.
Fundada em Salvador por Hisan Silva e Pedro Batalha, a Dendezeiro transformou vivências baianas em uma linguagem de moda expansiva, afetiva e politicamente consciente. A marca trabalha cores, volumes, memória, festa e pertencimento sem reduzir a Bahia a uma imagem turística. Depois de passar pelo Rio Fashion Week e ampliar sua circulação internacional, retorna ao SPFW como uma das vozes mais vibrantes da nova moda brasileira.
A Ellus retorna ao calendário do SPFW depois de aproximadamente quatro anos. Fundada em 1972, a marca ajudou a construir a relação do público brasileiro com o jeans como símbolo de juventude, atitude e vida urbana. Seu retorno coloca no mesmo line-up memória e renovação, além de recuperar uma etiqueta profundamente ligada à história da moda comercial no país. A expectativa está em descobrir como esse repertório será atualizado para uma nova geração.
Criada por Vivian Rivaben e Silvio de Marchi, a Forca Studio trabalha com uma estética ligada à rebeldia, à noite paulistana e às subculturas urbanas. Proporções amplas, materiais de impacto e uma imagem carregada de atitude ajudam a construir o universo da marca. A Forca entende o desfile como experiência e costuma expandir sua narrativa para o cenário, o casting e a performance, tornando cada apresentação um acontecimento visual.
A Foz, criada pelo alagoano Antônio Castro, conecta alfaiataria, artesanato e cultura popular brasileira. Suas coleções valorizam técnicas e profissionais que atuam fora dos centros mais óbvios do mercado, especialmente em Alagoas. Bordados, texturas e construções manuais aparecem com acabamento contemporâneo, sem apagar a origem dos saberes utilizados. É uma moda que observa o território como fonte de conhecimento, e não apenas como inspiração estética.
Designer, artista e professor, Gustavo Silvestre levou o crochê para um campo de experimentação que atravessa moda, arte e sustentabilidade. Seu trabalho também está ligado ao Projeto Ponto Firme, iniciativa que promove formação e transformação social por meio do crochê no sistema prisional. Na passarela, materiais descartados, brilho e técnicas manuais ganham novas escalas. O resultado desafia a antiga separação entre artesanato e alta moda.
Fundada por André Namitala no Rio de Janeiro, a Handred desenvolveu uma alfaiataria leve, solar e conectada ao modo brasileiro de vestir. Tecidos respiráveis, silhuetas soltas e referências artísticas formam uma moda sofisticada sem rigidez. Ao longo dos anos, a marca ampliou seu olhar para coleções femininas e masculinas, mantendo a elegância descomplicada como assinatura. Sua presença reforça a ponte criativa entre Rio e São Paulo.
Alexandre Herchcovitch é um dos estilistas mais importantes da história do SPFW. Desde os anos 1990, sua obra combina domínio técnico, referências da cultura alternativa, construção precisa e uma capacidade rara de transformar inquietação em roupa. A retomada da marca Herchcovitch;Alexandre abriu um novo capítulo para esse repertório. Cada desfile carrega memória, mas também a expectativa de encontrar um criador ainda disposto a provocar.
A mineira Hisha faz sua estreia no SPFW após apresentar sua primeira coleção de semana de moda no RioFW, em abril. Sob a direção criativa de Giovanna Resende, a marca trabalha bordados, transparências, veludos, recortes e referências ao barroco mineiro. A coleção “Doura” mostrou como técnicas ancestrais podem ganhar sensualidade e leitura contemporânea. Sua chegada a São Paulo é uma das estreias mais simbólicas da temporada.
João Pimenta transformou a alfaiataria masculina em território de liberdade. Saias, vestidos, tecidos leves, volumes e construções tradicionalmente associadas ao guarda-roupa feminino aparecem em diálogo com ternos, camisas e códigos clássicos. Seu trabalho questiona limites de gênero sem abandonar o rigor técnico. Literatura, teatro e comportamento frequentemente atravessam suas coleções, fazendo da passarela um espaço de reflexão sobre novas masculinidades.
Fundada em 2006 pelas irmãs Lilly e Renata Sarti, a marca construiu uma imagem feminina que equilibra sensualidade, desenho preciso e materiais sofisticados. Couro, recortes arquitetônicos, estampas e peças capazes de mudar de forma fazem parte de seu repertório. A Lilly Sarti trabalha com o desejo sem depender do óbvio, criando roupas que podem parecer delicadas em um primeiro olhar, mas sempre guardam estrutura e personalidade.
A marca cearense Marina Bitu, fundada por Marina Bitu e Cecília Baima, traduz técnicas artesanais brasileiras por meio de uma linguagem contemporânea, colorida e experimental. Fuxicos ampliados, plissados, renda richelieu e superfícies construídas manualmente aparecem longe do lugar folclórico. A marca observa o Ceará como território vivo de criação e mostra como memória, pesquisa de materiais e desenho podem coexistir com leveza.
Tom Martins tornou a Martins reconhecida por uma estética maximalista, marcada por contrastes de estampas, volumes, referências musicais e uma energia quase performática. Ao mesmo tempo, o estilista já mostrou que sabe retirar elementos e trabalhar o silêncio quando a coleção pede outra direção. Essa imprevisibilidade torna sua presença interessante. A cada temporada, a pergunta não é apenas qual roupa será apresentada, mas qual atmosfera a marca pretende criar.
O Mercado Livre participa como projeto especial, e não como uma marca tradicional de moda. Em temporadas anteriores, a marca trabalhou com a curadoria do stylist Daniel Ueda para construir looks a partir de diferentes décadas, tendências e produtos disponíveis no marketplace. A presença no SPFW revela como conteúdo, styling, tecnologia e comércio estão cada vez mais conectados. O desafio é transformar variedade em uma narrativa de moda coerente.
Com origem na Amazônia, a Normando foi criada pelo estilista Marco Normando e pelo artista visual Emídio Contente. A marca utiliza alfaiataria, pesquisa de materiais e referências amazônicas para deslocar o olhar da moda brasileira para o Norte. Em vez de reproduzir imagens previsíveis da floresta, trabalha símbolos, mitologias, contradições urbanas e experiências pessoais. O resultado é uma moda de construção precisa e identidade territorial.
Criada pela engenheira e estilista Mônica Sampaio, a Santa Resistência celebra a estética afro-brasileira e as raízes culturais do Recôncavo Baiano. Estampas, vestidos fluidos, túnicas e cores intensas aparecem em uma produção ligada ao slow fashion e à valorização de uma cadeia mais consciente. A marca transforma ancestralidade em presença contemporânea, sem tratar a cultura negra como tendência passageira ou simples elemento decorativo.
A parceria entre Sou de Algodão e Ronaldo Fraga reúne uma fibra central para a indústria brasileira e um dos estilistas mais narrativos do país. Fraga transforma moda em memória, pesquisa e comentário cultural, criando desfiles capazes de emocionar antes mesmo de qualquer leitura técnica. A colaboração desperta expectativa justamente por aproximar cadeia produtiva, identidade nacional e a imaginação de um criador que entende a roupa como forma de contar histórias.
- Uó por Marcelo Sommer
Depois de mais de uma década afastado do calendário, Marcelo Sommer retornou ao SPFW com a Uó, projeto dedicado ao upcycling e à transformação de peças já existentes. O nome brinca com aquilo que foi considerado ultrapassado, descartável ou de mau gosto. Nas mãos do estilista, o garimpo se converte em construção autoral. A proposta recupera a irreverência de Sommer e a coloca em diálogo com as urgências atuais do consumo.
Um line-up que não tenta resumir o Brasil
O ponto mais interessante do SPFW N61 está na convivência entre linguagens que não precisam parecer iguais para ocupar o mesmo calendário. Ellus e Herchcovitch;Alexandre carregam capítulos importantes da história do evento. Ammi e Hisha chegam como estreantes. Catarina Mina, Foz, Marina Bitu e Gustavo Silvestre ampliam o lugar das técnicas manuais. Dendezeiro, Normando e Santa Resistência colocam identidade, território e ancestralidade no centro da criação.
Ao reunir essas perspectivas, o SPFW continua cumprindo uma função que ultrapassa a previsão de tendências. A passarela cria encontros, registra transformações e mostra que a moda brasileira se torna mais interessante quando não tenta caber em uma única imagem.
Três décadas depois, a força do evento está justamente em continuar abrindo a passarela para novas perguntas. E, se o line-up da N61 antecipa alguma resposta, é que o futuro da moda brasileira será construído por muitas mãos, sotaques, memórias e maneiras de imaginar o país.
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