Na Primavera/Verão 2027, Maria Grazia Chiuri transforma lingerie, espelhos e cultura pop italiana em uma reflexão sobre desejo, gênero, corpo e liberdade na passarela

Antes mesmo de pensar no vestido, no casaco ou na bolsa, Maria Grazia Chiuri decidiu olhar para aquilo que vem antes de todos eles: o corpo. Na coleção Primavera/Verão 2027 da Fendi, apresentada hoje (23) em Milão, não surge apenas como suporte para a roupa. É ponto de partida, lugar de desejo, fragilidade, força e, sobretudo, encontro. Essa intenção poderia facilmente terminar em um discurso abstrato demais para uma passarela. Chiuri, porém, encontrou uma maneira bastante concreta de colocá-la em cena. Começou pela lingerie.

Sutiãs, rendas, transparências, shorts de seda, meias e peças normalmente associadas à intimidade deixaram de existir apenas por baixo de alguma coisa. Ganharam visibilidade, entraram nas sobreposições e ajudaram a desmontar a ideia de que determinadas roupas precisam estar escondidas para cumprir sua “função”. Não é exatamente sobre mostrar mais pele. É sobre decidir o que esconder, o que revelar e por quê.

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Fendi Primavera/Verão 2027 com modelos em cenário espelhado
Na Primavera/Verão 2027, a Fendi coloca o corpo no centro da conversa e mistura lingerie, transparências, texturas e códigos que atravessam o feminino e o masculino – Foto: Divulgação/Fendi

A lingerie deixa de ser coadjuvante

Existe algo de muito íntimo na roupa que escolhemos antes de todas as outras. É justamente essa camada que a diretora criativa da marca puxa para a superfície. Na coleção, o underwear aparece como uma espécie de território intermediário. Pode ser coberto, pode ficar à mostra, pode atravessar uma peça mais pesada ou dividir espaço com materiais que aparentemente pertencem a universos completamente diferentes. Renda encontra animal print. Seda divide o look com superfícies mais densas. Transparência aparece ao lado de veludo. O delicado não precisa ser frágil, assim como aquilo que parece pesado não precisa transmitir dureza.

Essa mistura colabora para um afastamento de uma sensualidade construída apenas para o olhar de quem está do lado de fora. O corpo não é apresentado como algo que precisa ser corrigido, moldado ou comprimido para caber na roupa. A lógica parece ser outra: é a roupa que precisa aceitar o corpo com suas contradições. Forte e vulnerável. Público e íntimo. Masculino e feminino. Tudo ao mesmo tempo.

Ao trazer peças íntimas para a superfície dos looks, Maria Grazia Chiuri transforma a lingerie em parte visível da construção da coleção – Foto: Divulgação/Fendi

Raffaella Carrà entra nessa conversa

É difícil falar de liberdade corporal dentro da cultura pop italiana sem chegar a Raffaella Carrà. A cantora, apresentadora e performer aparece como uma das grandes referências da coleção não apenas por causa de seus figurinos. Sua imagem está atrelada justamente a uma maneira muito própria de ocupar o palco, brincar com sensualidade e fazer do próprio corpo uma extensão daquilo que queria dizer. Chiuri olha justamente para essa liberdade.

Raffaella não entra na coleção como uma fantasia dos anos 1970 para ser copiada literalmente. O interesse está mais na atitude do que no figurino. Há ironia, brilho, exposição e prazer, mas também independência. Essa presença fica ainda mais evidente quando “Prisencolinensinainciusol”, de Adriano Celentano, atravessa a apresentação. A música ganhou uma performance na televisão que marcou  pois estava cheia de  dança, movimento e espelhos. Décadas depois, aquela energia reaparece dentro de outra linguagem.

A atitude ganha tanto peso quanto a roupa em uma coleção que aproxima sensualidade, ironia e liberdade – Foto: Divulgação/Fendi

O espelho deixa de servir apenas para se olhar

Se o corpo era o centro da coleção, o cenário precisava encontrar uma maneira de multiplicá-lo. Foi daí que surgiu uma grande estrutura de espelhos inspirada em “Cubo di specchi”, obra do artista italiano Luciano Fabro. O resultado transforma uma coisa bastante cotidiana, olhar para o próprio reflexo, em uma experiência coletiva. Modelos aparecem duplicados. Público e passarela se misturam visualmente. Quem está sentado observando também acaba entrando na imagem e faz parte do espetáculo.

E isso muda discretamente a posição de quem assiste. Em um desfile tradicional, existe uma fronteira bastante clara entre quem mostra e quem olha. Ali, o espelho atrapalha essa divisão. Por alguns instantes, o espectador também precisa lidar com a própria presença dentro daquela cena. Não é coincidência que uma coleção interessada em corpos escolha justamente um espaço em que nenhum corpo consiga existir completamente sozinho.

O cenário espelhado multiplica os corpos na passarela e coloca público, modelos e reflexos dentro de uma mesma imagem – Foto: Divulgação/Fendi

Quando masculino e feminino deixam de organizar o armário

Outra fronteira vai perdendo força ao longo da coleção. Homens e mulheres compartilham códigos, materiais e construções sem que a roupa precise anunciar a qual lado tradicionalmente pertence. Essa ideia já vem aparecendo na nova fase da Fendi com Maria Grazia Chiuri, mas encontra aqui uma leitura ainda mais sensual. Não se trata simplesmente de colocar uma peça considerada feminina em um homem ou fazer o movimento contrário. Isso seria “fácil” demais.

A coleção questiona por que essas classificações ainda precisam determinar a forma como determinadas roupas são percebidas. Quando renda, seda, transparência, alfaiataria, animal print e peças mais pesadas passam de um corpo para outro, o gênero deixa de funcionar como manual de instruções. A roupa ganha espaço para existir antes da regra.

Homens e mulheres dividem materiais, proporções e códigos de vestuário em uma coleção que prefere misturar fronteiras a reforçá-las – Foto: Divulgação/Fendi

O robe também resolveu sair de casa

Entre as peças que ajudam a entender esse movimento estão os robes. Associados à casa, ao quarto e a uma ideia de intimidade, eles aparecem deslocados para a rua. É uma mudança simples, mas bastante coerente com toda a coleção. Se underwear pode aparecer, o robe também pode deixar o ambiente doméstico.

Essa passagem de uma roupa de um espaço para outro diz muito sobre como a moda cria regras silenciosas. Existem peças para dormir, trabalhar, sair, seduzir, receber visitas, aparecer ou desaparecer. Maria parece pouco interessada em respeitar essas categorias do que em misturá-las. É daí que vêm encontros aparentemente improváveis: punk e bourgeois, brilho e opacidade, materiais delicados e superfícies mais densas. Nada precisa permanecer exatamente onde esperamos encontrá-lo.

Texturas densas, animal print e peças de aparência íntima ajudam a desfazer a separação entre roupa de dentro, roupa de fora e roupa de rua – Foto: Divulgação/Fendi

Uma segunda pele que sente

O poema “I like my body when it is with your body”, de E. E. Cummings, ajuda a organizar a ideia por trás de tudo isso. Não é um corpo isolado que interessa à coleção. É aquilo que acontece quando ele encontra outro. Deste modo, chamar a roupa de segunda pele ganha outra dimensão. Ela não serve somente para cobrir. Também recebe memória, desejo, desconforto, prazer e tudo aquilo que muda quando nos relacionamos com alguém ou simplesmente percebemos que estamos sendo vistos.

Talvez por isso a coleção funcione melhor quando suas referências deixam de ser analisadas separadamente. A lingerie sozinha poderia ser apenas tendência. O espelho sozinho poderia virar cenografia. Raffaella Carrà poderia ser apenas uma citação pop. A mistura entre masculino e feminino poderia terminar como discurso. Juntos, esses elementos contam outra coisa.

A Fendi olha para o corpo sem tentar resolvê-lo

Existe uma vontade recorrente na moda de dizer ao corpo o que fazer. Alongar. Afinar. Estruturar. Esconder. Mostrar. Corrigir. Valorizar. A Primavera/Verão 2027 da Fendi parece mais interessada em permitir. Permitir que uma peça íntima apareça. Que um robe atravesse a porta de casa. Que renda e animal print dividam espaço sem pedir licença. Que masculino e feminino parem de funcionar como lados opostos. Que alguém se olhe no espelho e encontre outra pessoa no mesmo reflexo.

Maria Grazia Chiuri não tenta apresentar uma resposta definitiva sobre como devemos vestir nossos corpos. Talvez porque o ponto seja justamente esse. O corpo muda, deseja, hesita, encontra outro corpo e muda novamente. A moda, quando acompanha esse movimento em vez de tentar controlá-lo, também fica mais interessante.

Entre transparências, sobreposições e contrastes de materiais, a coleção termina reafirmando uma ideia central: é a roupa que se adapta ao corpo, e não o contrário – Foto: Divulgação/Fendi

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