Após mais de uma década de espera, Paulo Ricardo e Seu Jorge unem rock, soul e samba em “Sangue Bom”, releitura brasileira de “What’s Going On”, de Marvin Gaye

Depois de mais de uma década entre a primeira demo, o pedido de autorização à família de Marvin Gaye e a construção definitiva do projeto, Paulo Ricardo lança “Sangue Bom” ao lado de Seu Jorge, primeira parceria musical entre os dois artistas. A faixa apresenta uma versão em português de “What’s Going On”, clássico de 1971 que ajudou a transformar Marvin Gaye em uma das vozes mais importantes da música popular e da consciência social de seu tempo.

A colaboração também realiza uma vontade antiga. Paulo Ricardo e Seu Jorge se conhecem há cerca de 20 anos e já carregavam o desejo de dividir uma gravação desde uma noite de conversa e violão. O encontro finalmente aconteceu depois do Carnaval e ganhou produção de Waldo Denuzzo, participação de Nereu Gargalo e João Parahyba, do Trio Mocotó, além de videoclipe dirigido por Leo Liberti e identidade visual assinada por Speto.

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Paulo Ricardo e Seu Jorge durante as gravações de “Sangue Bom” – Montagem em IA

Um sonho que levou mais de dez anos

Paulo Ricardo não trata “Sangue Bom” como uma regravação qualquer. Ao apresentar o projeto, o cantor revelou que a ideia permaneceu por mais de uma década entre a primeira demo e sua chegada definitiva ao público.

Nesse intervalo estiveram o desenvolvimento da versão, o pedido de autorização à família de Marvin Gaye, a escolha do parceiro, as gravações, a produção, a mixagem, a masterização, o videoclipe e a criação da capa. Segundo Paulo, a versão em português recebeu o aval da família Gaye uma aprovação particularmente significativa para um artista que aponta Marvin como uma de suas grandes influências, não apenas pela voz, mas também por sua dimensão artística e social.

O resultado chega às plataformas digitais justamente em 23 de setembro, aniversário de Paulo Ricardo, transformando o lançamento em uma espécie de fechamento de ciclo para uma ideia perseguida durante anos.

Vinte anos de amizade finalmente chegam ao estúdio

Se a escolha da música carrega história, o encontro das vozes também.

Paulo Ricardo contou que conhece Seu Jorge há cerca de 20 anos. Em algum momento dessa relação, uma noite de conversa e violão deixou no ar o desejo de que os dois registrassem algo juntos. A vontade permaneceu, mas a agenda de Jorge e os caminhos individuais das duas carreiras adiaram a parceria.

O momento finalmente apareceu depois do Carnaval.

E “Sangue Bom” ganha parte de sua personalidade justamente do contraste. Paulo traz uma voz imediatamente associada ao pop e ao rock brasileiro; Seu Jorge carrega uma interpretação construída entre samba, soul, funk, MPB e groove. Não há tentativa de tornar as duas vozes parecidas. O interessante está em fazê-las coexistir.

É uma combinação que dialoga com a própria essência de “What’s Going On”: uma música sofisticada, mas profundamente humana, capaz de acolher diferentes timbres sem perder sua mensagem.

Paulo Ricardo durante as sessões de “Sangue Bom” – Foto: Divulgação

“What’s Going On”: a pergunta que Marvin Gaye fez ao mundo

Para entender o tamanho da escolha de Paulo Ricardo, é preciso voltar a 1971.

“What’s Going On” surgiu em meio a uma sociedade norte-americana atravessada pela Guerra do Vietnã, conflitos raciais, violência e profunda tensão social. A origem da composição passa por Renaldo “Obie” Benson, do Four Tops, que começou a desenvolver a ideia depois de presenciar violência policial contra manifestantes em Berkeley. A canção seria posteriormente construída ao lado de Al Cleveland e Marvin Gaye

Para Gaye, o tema também tinha dimensão familiar. Seu irmão Frankie havia retornado da Guerra do Vietnã, e os relatos daquele período se somaram às inquietações do cantor sobre o país em que vivia. Dessa combinação nasceu não apenas uma música, mas uma mudança profunda em sua carreira. 

Marvin Gaye – What’s Going On (1971) Foto: Divulgação

O álbum “What’s Going On”, lançado em maio de 1971, ampliou essa reflexão para temas como guerra, pobreza, espiritualidade, desigualdade e meio ambiente. A obra marcou uma ruptura importante dentro da própria trajetória de Gaye e da tradição da Motown. Décadas depois, o trabalho foi incluído no National Recording Registry dos Estados Unidos, reconhecimento destinado a gravações consideradas cultural, histórica ou esteticamente relevantes. 

Mais de meio século depois, a pergunta do título continua desconfortavelmente contemporânea.

“Sangue Bom” procura uma resposta brasileira

A versão de Paulo Ricardo e Seu Jorge não tenta simplesmente traduzir palavra por palavra o clássico de Marvin Gaye. O projeto reposiciona sua mensagem para o presente e, segundo a apresentação divulgada para o lançamento, aproxima a composição de discussões sobre violência contra mulheres e crianças, empatia e valorização da vida.

Há, portanto, uma intenção de preservar menos a literalidade e mais o espírito da obra original.

Se Marvin Gaye cantava diante das feridas de seu próprio tempo, “Sangue Bom” procura fazer essa mensagem atravessar idioma, país e geração.

A ligação entre os dois projetos está justamente aí: diante da violência, a canção insiste em falar de humanidade.

Do soul ao samba-rock

Outro ponto importante está nos músicos escolhidos para construir essa ponte.

A produção ficou a cargo de Waldo Denuzzo, produtor e maestro que Paulo Ricardo já conhecia de outros trabalhos. Denuzzo também atua à frente da Cream Studio e possui experiência em produção musical para diferentes artistas e projetos. 

Para trazer o suingue que a nova leitura pedia, o projeto chegou a Nereu Gargalo e João Parahyba, nomes fundamentais do Trio Mocotó. O grupo, formado no fim dos anos 1960, ajudou a consolidar uma mistura de samba, rock, funk e soul que se tornaria referência para o samba-rock brasileiro. 

A participação não é apenas uma citação histórica. Ela ajuda a colocar “Sangue Bom” em um território brasileiro de groove, conectando a sofisticação soul de Marvin Gaye a uma tradição rítmica construída por aqui.

A mixagem, segundo Paulo Ricardo, passou por Lucas Nunes e Leo Marques.

O estúdio também virou cenário

As gravações com Seu Jorge aconteceram na Black Service, em Tamboré, e o processo acabou ultrapassando o áudio. Parte das imagens realizadas durante as sessões foi aproveitada no videoclipe, dirigido por Leo Liberti.

Isso ajuda a explicar a estética íntima das imagens divulgadas: fones de ouvido, microfones, pouca interferência visual e dois intérpretes concentrados na música.

O vídeo coloca o público dentro da sessão em vez de tentar transformar a faixa em uma narrativa distante do processo que a originou.

O encontro de Paulo Ricardo e Seu Jorge transforma anos de amizade em parceria musical – Foto: Divulgação/Instagram – Paulo Ricardo

Speto completa a tradução para o Brasil

A brasilidade do projeto não fica restrita ao som.

Paulo Ricardo convidou o artista Speto para trabalhar a identidade visual de “Sangue Bom”. Conhecido pelo diálogo entre grafite e referências da cultura popular brasileira, o artista trouxe ao projeto elementos ligados à serigrafia, ao cordel, às cores e ao simbolismo gráfico nacional.

A escolha cria uma continuidade interessante: assim como a música recebe nova linguagem ao chegar ao Brasil, sua representação visual também procura se afastar de uma simples reprodução estética do universo de Marvin Gaye. É uma releitura em mais de uma camada.

Quem são Paulo Ricardo e Seu Jorge

Paulo Ricardo construiu seu nome como cantor, compositor e baixista e tornou-se uma das vozes mais reconhecidas do rock brasileiro a partir do RPM, banda que marcou os anos 1980 com músicas como “Olhar 43”, “Rádio Pirata” e “A Cruz e a Espada”. Antes da explosão do grupo, também trabalhou como jornalista e crítico musical. 

Seu Jorge, nascido em Belford Roxo, começou sua trajetória artística entre teatro, samba, funk e charme antes de integrar o Farofa Carioca. A carreira solo ampliou essa mistura de gêneros e ganhou projeção internacional, paralelamente ao trabalho como ator em filmes como “Cidade de Deus” e “A Vida Marinha com Steve Zissou”. 

As duas histórias vêm de lugares diferentes. É justamente por isso que o encontro funciona como conceito antes mesmo de qualquer nota ser cantada.

Paulo Ricardo e Seu Jorge se conhecem há cerca de 20 anos – Foto: Divulgação/Instagram – Paulo Ricardo

“Sangue Bom” junta três movimentos em um só projeto: revisita uma obra histórica, realiza uma parceria aguardada por cerca de duas décadas e procura atualizar uma mensagem social sem apagar a identidade musical brasileira.

Também existe algo simbólico na demora. Paulo Ricardo passou mais de dez anos carregando essa versão antes de conseguir apresentá-la. A amizade com Seu Jorge levou cerca de 20 anos para finalmente chegar a uma gravação. E a música que colocou tudo isso em movimento tem mais de meio século.

Talvez “Sangue Bom” seja, acima de tudo, um projeto sobre tempo.

O tempo que muda arranjos, aproxima artistas e modifica contextos, mas que nem sempre consegue tornar antigas perguntas menos necessárias.

Em 1971, Marvin Gaye perguntou “What’s Going On?”.

Em 2026, Paulo Ricardo e Seu Jorge respondem à sua maneira: ainda é preciso falar de paz, consciência e amor.

Ouça

“Sangue Bom” Paulo Ricardo e Seu Jorge chega às plataformas digitais na virada para quarta-feira, 23 de setembro. O videoclipe será lançado no mesmo dia, às 11h, no YouTube.

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