Em nova versão de clássico italiano, Laura Pausini convida Sandy para um encontro que atravessa Brasil, Itália e mais de três décadas de música pop

Há colaborações que parecem nascer de uma estratégia de mercado. Outras carregam uma história anterior ao estúdio. O encontro de Laura Pausini e Sandy em “Quando Chove” pertence ao segundo grupo. Lançada em 6 de agosto pela Warner Records, a faixa ganhou videoclipe gravado em Milão e foi incorporada às versões digitais de “Io Canto 2”, projeto no qual Laura revisita canções italianas importantes para sua formação musical. 

A origem da música, porém, atravessa diferentes épocas e países. “Quando Chove” parte de “Quanno Chiove”, composição lançada pelo cantor e compositor napolitano Pino Daniele em 1980. No Brasil, a obra ganhou versão em português de Nelson Motta e ficou conhecida na voz de Patricia Marx, que a gravou em 1994.  Mais de três décadas depois, a canção volta ao pop brasileiro pelas vozes de duas artistas que têm na delicadeza vocal uma de suas marcas.

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Laura Pausini e Sandy: “Quando Chove” de 1980 a 2026
Laura Pausini e Sandy unem suas vozes em “Quando Chove”, colaboração que aproxima novamente Brasil e Itália – Foto: Divulgação

Uma música italiana que já fazia parte da memória brasileira

Antes de chegar às vozes de Laura e Sandy, “Quando Chove” já tinha uma trajetória importante no Brasil. A gravação de Patricia Marx integrou o álbum “Ficar com Você”, de 1994, com produção de Nelson Motta e Tuta Aquino. A composição original é de Pino Daniele e a letra em português foi assinada por Nelson Motta. 

A canção também ganhou forte exposição na televisão brasileira durante os anos 1990, ajudando a transformá-la em uma música afetivamente ligada àquela geração. Laura contou que chegou à existência da versão brasileira enquanto trabalhava em sua releitura de “Quanno Chiove”. A partir daí, surgiu a ideia de gravar em português. Segundo a cantora, ao preparar a demo, a voz de Sandy lhe veio imediatamente à cabeça. O convite também tem um componente afetivo. Sandy revelou nas redes sociais que admira Laura há muitos anos e celebrou a possibilidade de finalmente registrar a colaboração em estúdio.

Laura Pausini: uma italiana com longa história no Brasil

A relação de Laura Pausini com o Brasil começou praticamente junto com sua explosão internacional.

A cantora ganhou projeção em 1993, ao vencer a categoria de novos artistas do Festival de Sanremo com “La Solitudine”. A música ajudou a lançar uma carreira que rapidamente ultrapassaria as fronteiras da Itália, sobretudo a partir das versões em espanhol de seu repertório. 

Laura Pausini mantém uma relação de décadas com o Brasil e já construiu diferentes parcerias com artistas do país – Foto: Divulgação

O Brasil entrou nessa história muito cedo. Laura recorda suas primeiras viagens ao país como experiências incomuns: mesmo sem falar português naquela época, dizia compreender o idioma e sentir uma familiaridade imediata com o Rio de Janeiro. Ao longo dos anos, passou a repetir, em tom afetuoso, que talvez tivesse sido brasileira “em outra vida”. 

A relação não ficou apenas no discurso. Laura aprendeu português, passou a incluir regularmente o país em suas turnês e construiu uma sequência de encontros com artistas brasileiros. Entre eles estão Gilberto Gil, Ivete Sangalo, Simone & Simaria, Tiago Iorc, Ana Carolina, Ferrugem e a própria Sandy. Pausini já declarou, inclusive, que o português é seu idioma favorito para cantar além das línguas em que construiu sua carreira internacional. 

Um dos primeiros capítulos dessa ponte aconteceu com Gilberto Gil, que participou de “Seamisai” e também adaptou a música para o português como “Sei Que Me Amavas”. Décadas depois, essa aproximação continua sendo alimentada por novas gerações da música brasileira.

Do Sanremo ao Grammy

Ao longo de mais de 30 anos de carreira, Laura Pausini se tornou uma das artistas italianas de maior projeção internacional. Seu currículo reúne mais de 70 milhões de discos vendidos, uma trajetória construída em diferentes idiomas e reconhecimento tanto no mercado europeu quanto no latino. Em 2006, venceu o Grammy de Melhor Álbum Pop Latino com “Escucha”. 

Laura Pausini celebra a vitória no Grammy Awards de 2006, em Los Angeles, com o álbum “Escucha” – Foto: Divulgação

Em 2021, conquistou o Globo de Ouro de Melhor Canção Original por “Io sì (Seen)”, tema do filme “Rosa e Momo”, e chegou ao Oscar com uma indicação na mesma categoria. Dois anos depois, foi escolhida Person of the Year de 2023 pela Academia Latina da Gravação, reconhecimento destinado não apenas à relevância de sua obra, mas também à contribuição cultural construída ao longo da carreira. 

É justamente essa dimensão internacional que torna sua relação com o Brasil curiosa: mesmo com uma carreira estabelecida em dezenas de países, Laura nunca tratou o mercado brasileiro apenas como mais uma parada de turnê.

Sandy e Laura já tinham uma história antes do feat

“Quando Chove” também fecha um círculo que começou muito antes. Em 1997, Sandy & Junior gravaram em português “Inesquecível”, versão de “Incancellabile”, um dos grandes sucessos do repertório de Laura Pausini. A relação entre as artistas, portanto, atravessa praticamente três décadas. Elas também já haviam dividido o palco anteriormente. Agora, pela primeira vez, essa admiração chega a uma gravação lançada oficialmente como parceria das duas.

Laura disse que sempre enxergou em Sandy uma voz doce e uma interpretação compatível com a atmosfera da música. Para a italiana, a escolha ganhou ainda mais sentido quando descobriu que “Quando Chove” também fazia parte das memórias musicais da brasileira. O resultado é menos uma disputa vocal e mais uma conversa. As duas trabalham justamente onde são mais reconhecidas: fraseado limpo, interpretação contida e atenção à melodia.

Sandy cresceu diante do Brasil e soube mudar de lugar

Para Sandy, o feat chega depois de uma trajetória rara na música brasileira. Sua carreira profissional começou ainda na infância, ao lado do irmão Junior Lima. A dupla Sandy & Junior atravessou diferentes fases do pop nacional até encerrar as atividades em 2007. A partir de 2010, com “Manuscrito”, Sandy iniciou uma carreira solo marcada por escolhas mais autorais e uma sonoridade ligada ao pop, folk e à canção brasileira. 

Sandy e Júnior Lima – Foto: Reprodução/Instagram

Essa segunda etapa ajudou a modificar também a percepção sobre sua voz. Se nos anos de Sandy & Junior ela era uma das maiores estrelas populares do país, na carreira solo passou a trabalhar repertórios mais intimistas, produção menos grandiosa e colaborações escolhidas a partir da identidade de cada música. É uma estratégia que aparece em projetos como “Nós, Voz, Eles”, construído justamente sobre encontros artísticos.

De Andrea Bocelli a Enrique Iglesias: os encontros internacionais de Sandy

A relação de Sandy com artistas internacionais não começa em Laura Pausini. Ainda adolescente, ela participou de uma das colaborações mais simbólicas de sua carreira ao gravar “Vivo por Ella” com Andrea Bocelli, versão em português do sucesso “Vivo per lei”. A parceria nasceu nos anos 1990 e se tornou tão marcante que os dois continuam reencontrando a música no palco décadas depois. Em 2024 e 2025, Sandy voltou a participar de apresentações do tenor no Brasil. 

Sandy e Andrea Bocelli dividem o palco em show no Pacaembu, em São Paulo, em novembro de 2025 – Foto: Divulgação/Patricia Devoraes

Em 2000, outro encontro colocou sua voz ao lado de um nome de alcance mundial: Enrique Iglesias. Sandy participou da versão brasileira de “You’re My #1”, incluída na edição nacional do álbum “Enrique”. No universo da música eletrônica, Sandy também emprestou a voz ao projeto italiano Benassi Bros.. A colaboração mais conhecida é “Illusion”, que ganhou espaço nas pistas europeias. Ela ainda aparece em outras faixas do projeto, como “Light”, “Castaway” e “Movin’ Up”. 

Já em 2009, pouco antes de lançar oficialmente sua carreira solo, Sandy dividiu o palco com o norte-americano Jason Mraz durante o festival Natura Nós, em São Paulo. Os dois cantaram “Lucky”, faixa originalmente registrada por Mraz com Colbie Caillat.  São encontros de naturezas bastante diferentes do pop latino à música clássica, da eletrônica ao folk-pop e que ajudam a entender como Sandy sempre transitou por repertórios internacionais sem transformar isso no centro de sua identidade artística.

“Quando Chove” encontra duas artistas que sabem atravessar o tempo

Talvez o ponto mais interessante da parceria esteja justamente aqui. Laura e Sandy pertencem a mercados diferentes, cresceram em países diferentes e construíram repertórios muito particulares. Mas compartilham algumas características: começaram muito jovens, atravessaram períodos de exposição gigantesca, precisaram amadurecer publicamente e conseguiram estabelecer carreiras que não dependem exclusivamente da nostalgia.

“Quando Chove” funciona porque não tenta esconder essa história. Uma canção italiana de 1980, que ganhou uma versão brasileira marcante em 1994, retorna em 2026 nas vozes de uma italiana apaixonada pelo Brasil e de uma brasileira que, desde a adolescência, já dialogava musicalmente com a Europa. Mais do que acrescentar um nome internacional à discografia de Sandy ou uma cantora brasileira à lista de convidados de Laura, o feat aproxima histórias que já vinham se cruzando havia muito tempo. E, nesse caso, a chuva parece ter esperado mais de 30 anos pelo encontro certo.

Por que importa

“Quando Chove” mostra como o catálogo musical pode atravessar gerações sem depender apenas da nostalgia. A mesma composição liga Pino Daniele, Patricia Marx, Laura Pausini e Sandy, passando pela música italiana, pela televisão brasileira dos anos 1990 e pelo atual mercado global do streaming. Ao mesmo tempo, reforça uma relação rara de Laura Pausini com o Brasil: a cantora não apenas mantém público no país, mas incorporou artistas, repertório e o próprio idioma português à sua trajetória internacional.

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