Clássico composto com Ronaldo Bastos ganha nova leitura no álbum “Minha História” e relembra passagens pelas novelas “Fera Ferida” e “Orgulho e Paixão”, da TV Globo
Flávio Venturini revisita um dos maiores sucessos de sua trajetória ao lado de Vanessa da Mata . A regravação de “Noites com Sol”, lançada em 2025 e novamente destacada pela Biscoito Fino, integra “Minha História”, álbum criado para celebrar cinco décadas de carreira do músico mineiro. O encontro aproxima duas vozes de gerações diferentes e apresenta a canção a novos ouvintes, preservando o romantismo que a transformou em um clássico da música brasileira.
Lançada no início dos anos 1990, “Noites com Sol” também ganhou espaço na televisão. A música embalou Áureo e Frida na novela “Fera Ferida”, exibida pela TV Globo entre 1993 e 1994, e retornou às trilhas da emissora em “Orgulho e Paixão”, de 2018. Mais de três décadas depois, o dueto com Vanessa reforça a capacidade da composição de atravessar épocas e ganhar novas interpretações.
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“Noites com Sol” nasceu diante da Furada
A origem de “Noites com Sol” está ligada a uma das paisagens mais conhecidas do litoral brasileiro. Segundo Flávio Venturini, a melodia começou a nascer durante um momento de contemplação diante da Pedra Furada, em Jericoacoara, no Ceará. A imagem inspirou a atmosfera da composição, que posteriormente recebeu a letra de Ronaldo Bastos, parceiro de Flávio em diferentes momentos de sua carreira.
A união entre a melodia de Venturini e a poesia de Ronaldo Bastos criou uma música sobre esperança, amor e a possibilidade de encontrar claridade mesmo em períodos difíceis. A expressão “noites com sol”, que parece contraditória à primeira vista, funciona como uma metáfora para os momentos em que o afeto consegue iluminar aquilo que parecia cercado pela escuridão.
A canção ficou conhecida nacionalmente ao entrar na trilha de “Fera Ferida”. Na novela de Aguinaldo Silva, Ricardo Linhares e Ana Maria Moretzsohn, “Noites com Sol” embalava o romance de Áureo Poente, interpretado por Cláudio Fontana, e Sigfrida, a Frida, vivida por Deborah Evelyn. Os dois enfrentavam a oposição das famílias e as diferenças sociais que dificultavam o relacionamento.
Em 1994, a música deu nome ao álbum “Noites com Sol”, o primeiro trabalho da carreira solo de Flávio Venturini a conquistar Disco de Ouro. Mais de duas décadas depois, a gravação voltou à televisão ao integrar a trilha de “Orgulho e Paixão”, novela exibida pela Globo em 2018.
Flávio Venturini construiu uma obra ligada à música mineira
Nascido em Belo Horizonte, Flávio Venturini começou a estudar música aos 15 anos, passando pelo acordeon, pelo piano, pela composição e pelos arranjos. Nos anos 1970, aproximou-se de artistas como Lô Borges, Beto Guedes, Toninho Horta, Tavinho Moura e Milton Nascimento, nomes ligados ao movimento que ficou conhecido como Clube da Esquina.
Em 1974, por indicação de Milton Nascimento, gravou com Sá & Guarabyra e, posteriormente, entrou para o grupo O Terço, uma das principais bandas do rock progressivo brasileiro. Flávio permaneceu na formação até 1977 e participou de dois discos do grupo.
No ano seguinte, tocou no álbum “Clube da Esquina 2”, de Milton Nascimento, que trouxe “Nascente”, composição de Flávio com Murilo Antunes. Em 1979, fundou, ao lado do músico Vermelho, a banda 14 Bis. O grupo aproximou o rock, a MPB e as harmonias vocais, construindo um repertório marcado por músicas como “Linda Juventude”, “Planeta Sonho” e “Todo Azul do Mar”.
Flávio iniciou a carreira solo em 1982, ainda quando fazia parte do 14 Bis, com o álbum “Nascente”. Depois de deixar definitivamente a banda, no fim dos anos 1980, consolidou uma trajetória marcada por melodias românticas e parcerias importantes. “Espanhola”, “Todo Azul do Mar”, “Céu de Santo Amaro”, “Mais Uma Vez”, “Nascente” e “Noites com Sol” estão entre as composições que ajudaram a transformar sua obra em parte da memória afetiva da música brasileira.

Vanessa da Mata encontra um novo caminho para o clássico
Vanessa da Mata nasceu em Alto Garças, no Mato Grosso, e começou a cantar profissionalmente ainda na adolescência. Depois de passar por Uberlândia, mudou-se para São Paulo, onde integrou grupos de reggae e trabalhou como backing vocal da banda jamaicana Black Uhuru durante uma turnê pelo Brasil.
Antes de se tornar conhecida como intérprete, Vanessa ganhou espaço como compositora. Em parceria com Chico César, escreveu “A Força que Nunca Seca”, gravada por Maria Bethânia em 1999. A canção deu nome ao álbum da cantora baiana e recebeu uma indicação ao Grammy Latino, apresentando Vanessa ao público como uma nova autora da MPB.
O primeiro álbum solo, “Vanessa da Mata”, chegou em 2002 e trouxe “Não Me Deixe Só”. Nos trabalhos seguintes, ela ampliou seu público com canções como “Ai, Ai, Ai…”, “Amado”, “Ainda Bem” e “Boa Sorte/Good Luck”, parceria com o norte-americano Ben Harper. Em 2008, “Sim” venceu o Grammy Latino de Melhor Álbum de Pop Contemporâneo em Língua Portuguesa.

Foto: Divulgação/Vitória Proença.
Em “Noites com Sol”, Vanessa procurou evitar uma simples reprodução da versão já conhecida. A cantora contou que o desafio era encontrar outro caminho para uma música que parecia difícil de transportar para uma nova interpretação. A solução veio pela descoberta de outros tons e de novas maneiras de dividir os versos com Flávio.
Sua presença também amplia o significado do projeto: Vanessa representa uma geração posterior da MPB que cresceu ouvindo compositores como Venturini e, ao mesmo tempo, construiu uma linguagem própria. No dueto, as duas trajetórias se encontram sem que uma voz precise imitar ou ocupar o espaço da outra.
“Minha História” celebra 50 anos por meio de encontros
Produzido por Torcuato Mariano, o álbum “Minha História” revisita diferentes fases da trajetória de Flávio Venturini. Em vez de apresentar apenas uma coletânea de sucessos, o projeto reorganiza o repertório por meio de encontros com artistas de estilos e gerações diferentes.
Além de Vanessa da Mata em “Noites com Sol”, o disco reúne Djavan em “Faltando um Pedaço”, Frejat em “Mais Uma Vez”, Ivete Sangalo em “Espanhola”, Ney Matogrosso em “Bésame”, Gloria Groove em “Princesa”, Jota Quest em “Linda Juventude” e Guilherme Arantes em “Nascente”. Gabi Melim, Ana Cañas e Ritchie também participam do trabalho.
Escolhida para abrir o álbum, “Noites com Sol” funciona como uma síntese da proposta. A música guarda a memória de uma paisagem, atravessou novelas, marcou a carreira de Flávio e agora encontra outra forma de chegar ao público. Com Vanessa da Mata, o clássico não perde a própria história: apenas ganha uma nova maneira de contá-la.
A versão está disponível nas plataformas digitais e no canal oficial da Biscoito Fino no YouTube.
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