Entre lágrimas, ancestralidade e samba, Anitta recebeu a coroa de rainha de bateria das mãos da icônica Eloína dos Leopardos e fez da posse um espetáculo de pertencimento e memória
A coroação de Anitta como rainha de bateria da Grande Rio teve tudo o que uma noite com uma das maiores estrelas pop do país poderia entregar: produção, figurino, música, convidados e uma quadra lotada. Mas foi quando o espetáculo encontrou a história do Carnaval que a celebração deste domingo (20), em Duque de Caxias, ganhou outra dimensão.
Aos 33 anos, Anitta recebeu a coroa das mãos de Eloína dos Leopardos, considerada pioneira entre as rainhas de bateria do Carnaval carioca. Chorou, sambou, levou a estética de “EQUILIBRIVM II” para dentro da quadra e colocou a comunidade no centro do discurso que abriu seu reinado à frente da Invocada.
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Anitta chega à coroa olhando para quem veio antes
O momento mais poderoso da noite talvez tenha acontecido antes mesmo de a coroa tocar a cabeça de Anitta. Eloína dos Leopardos entrou em cena para oficializar o novo reinado. Aos 80 anos, a artista é apontada como a primeira rainha de bateria do Carnaval carioca. Ela foi levada por Joãozinho Trinta para a frente dos ritmistas da Beija-Flor em 1976, há exatamente 50 anos.
Anitta não escolheu esse encontro por acaso. Depois de saber da possibilidade de ser coroada por Eloína, pesquisou sua trajetória e decidiu colocá-la no centro da cerimônia. Para a cantora, a história da artista representa abertura de caminhos, visibilidade e resistência para pessoas trans e travestis.
Foi uma escolha que deu à noite algo que nenhuma quantidade de pedraria conseguiria entregar sozinha: memória. A nova rainha não recebeu a coroa de quem ocupou o posto imediatamente antes dela. Virginia Fonseca não participou da cerimônia. Em vez da tradicional passagem entre antecessora e sucessora, a Grande Rio transformou o momento em uma conexão entre tempos diferentes do Carnaval. E ficou muito mais interessante assim.
Antes da rainha, Exu abriu os caminhos
A coroação foi pensada como espetáculo, mas também como narrativa. Antes da chegada de Anitta ao momento principal, um bailarino representando Exu entrou em cena para abrir os caminhos. A referência dialogou diretamente com a história recente da própria Grande Rio, que conquistou seu primeiro título do Grupo Especial em 2022 com um enredo dedicado à entidade.
Na sequência, a escola também recuperou sambas de outros momentos de sua história. O primeiro casal de mestre-sala e porta-bandeira, Taciana Couto e Daniel Werneck, entrou com o pavilhão, que passou pelas mãos de Anitta durante a apresentação.
Não era simplesmente uma estrela chegando para ocupar o centro da quadra. Havia uma preocupação evidente em dizer de onde aquele lugar vinha antes de dizer quem passaria a ocupá-lo. Para uma cerimônia cercada de expectativa, esse talvez tenha sido o detalhe mais elegante da noite.
“EQUILIBRIVM II” encontrou a Grande Rio
Anitta também fez questão de levar seu universo artístico para Caxias. Parte da estrutura e da linguagem visual usada na atual turnê foi transportada para dentro da quadra. O público recebeu leques para participar da apresentação, enquanto bailarinos, cenografia e troca de figurino ajudaram a aproximar a cerimônia de um show.
A apresentação começou com “Você Já Sabe”, passou por “Meia Noite” e chegou a “Feitiço”, parceria de Anitta com Mart’nália. A cantora chorou durante a noite e foi acompanhada pelo público em uma quadra completamente tomada. A escolha de “EQUILIBRIVM” como linguagem para a coroação também não ficou apenas na estética.
O trabalho mais recente de Anitta atravessa temas como fé, origem e ancestralidade. A Grande Rio, levará para a Sapucaí em 2027 o enredo “Sankofa Tabon: Os Retornados da Costa do Ouro e a Estrela Negra da Liberdade”, desenvolvido pelo carnavalesco Antônio Gonzaga. A escola contará a história de africanos escravizados que conquistaram a liberdade no Brasil e retornaram ao continente africano, estabelecendo-se na região da antiga Costa do Ouro, onde hoje fica Gana. Sankofa olha para trás para seguir adiante. Anitta também parece estar vivendo algo parecido.
O luxo estava no vermelho, mas não só nele
Visualmente, a nova rainha também entregou o que se esperava. Anitta chegou usando uma criação vermelha do Atelier Sollis, assinada pelo estilista Yan Sollis, tomada por pedrarias, recortes no abdômen e tecido leve sobre os quadris. O modelo chamou atenção também por já ter aparecido recentemente em Andrea Andrade, rainha de bateria da Porto da Pedra, que recebeu a coincidência com bom humor. Para a coroação, veio a segunda transformação.
Anitta trocou o vestido por um body cavado, também marcado pelo vermelho, combinado com o preto, muito brilho, calça de cintura baixa e um desenho de tridente na parte frontal. Adereços de cabeça completaram o visual. Foi maximalista, teatral e completamente consciente de que aquela entrada seria fotografada por todos os ângulos. Mas o figurino não precisou carregar a cerimônia sozinho. Tinha história acontecendo ao redor dele.
“Se a comunidade estiver feliz”
É aqui que o reinado de Anitta realmente começa. Durante o discurso, ela deixou claro que lotar a quadra com fãs não seria suficiente para fazê-la se sentir legitimada naquele espaço. A cantora diferenciou o público que a acompanha como artista das pessoas que vivem a escola durante o ano inteiro. Disse que, desde o primeiro contato com Mestre Fafá, queria saber se bateria e comunidade estavam realmente confortáveis com sua chegada. Em outro momento, resumiu a intenção com uma frase simples:
“Vou ficando o quanto vocês quiserem.”
E talvez tenha sido uma das falas mais importantes da noite. Rainha de bateria pode ser uma posição de enorme visibilidade, mas a bateria não existe apenas em fevereiro. Há ensaio, convivência, comunidade, ritmistas, diretores e uma escola inteira trabalhando muito antes de qualquer câmera chegar. Anitta sabe disso e deve ser por isso que o compromisso com a escola e a responsabilidade dela em horários e agenda sejam um dos pontos mais cruciais da sua carreira, isso mesmo como uma boa ariana ela deixa claro que cumpre corretamente seus horários e acordos.
Ela foi estudar samba antes de colocar a coroa
Outra informação ajuda a entender a maneira como Anitta decidiu ocupar o posto. Depois de receber o convite, a cantora procurou aulas específicas de samba, não que ela não soubesse sambar como uma boa carioca suburbana que é. Ela contou que uma coisa era sambar em festas e quadras desde a juventude, outra era fazer isso como rainha, diante de uma bateria e sob o olhar de quem conhece profundamente aquele universo.
Na preparação, buscou nomes que já conhecem bem esse lugar. Anitta teve aulas com Mayara Lima, Bellinha Delfim e Ana Flávia Barcelos. Também revelou vontade de aprender com Evelyn Bastos e Gaby Mendes, rainhas ligadas à Mangueira e à Mocidade. O detalhe diz muito. Em vez de tratar sua experiência prévia no Carnaval como passe livre, ela entendeu que havia algo novo para aprender.
A agenda internacional também entrou na conversa
A presença nos ensaios era uma preocupação antes mesmo do anúncio. Anitta revelou que sua principal condição para aceitar o convite foi conseguir conciliar os compromissos profissionais com o ensaio técnico da Grande Rio. Segundo ela, só autorizou o anúncio quando ficou definido um horário que permitisse cumprir um show e depois viajar para estar com a escola. Não é pouca coisa.
Com uma carreira que não cabe apenas no Brasil, o desafio daqui até fevereiro será provar que a empolgação da coroação consegue sobreviver à agenda. A primeira promessa está feita.
Da Portela à Grande Rio, o Carnaval já estava nessa história
Apesar de ser sua primeira vez como rainha de bateria, o Carnaval não é exatamente território novo para Anitta. Ela desfilou pela Portela em 2013. Em 2016, esteve na Sapucaí como musa da Mocidade Independente de Padre Miguel. Ao longo dos anos, transformou seus próprios blocos e ensaios em parte importante do calendário carnavalesco e também entrou na ala de compositores.
Em 2025, integrou uma parceria de compositores da Unidos da Tijuca. Agora, na Grande Rio, tentou ir além novamente. Anitta chegou à final da disputa de samba-enredo da escola ao lado de Igor Leal, Arlindinho, Fred Camacho, Fabian Juarez e Diego Nicolau. Na noite da coroação, porém, a obra não venceu.



O samba de Anitta perdeu, e a festa continuou
A Grande Rio escolheu durante a madrugada a composição de Deré, Licinho Jr., Robson Moratelli, Rafael Ribeiro, Igor Federal e Gusttavo Clarão para defender o enredo de 2027. Anitta havia dito antes do resultado que queria que a comunidade escolhesse o samba de que mais gostasse e que o melhor para a escola saísse vencedor.
É um detalhe ótimo dessa história. No mesmo dia em que conquistou um lugar de enorme destaque na Grande Rio, ela também perdeu uma disputa dentro da escola. E Carnaval é um pouco disso. Nem tudo gira em torno da estrela maior da noite.
Famosos acompanharam a nova rainha
A coroação também movimentou a lista de convidados. Danilo Mesquita, David Brazil e Bruna Griphao estiveram na quadra. Entre as musas e nomes ligados à escola, também passaram pela festa Brunna Gonçalves, Jaquelline Grohalski, Mariana Goldfarb e Adriana Bombom.
Brunna, cuja permanência na Grande Rio havia virado assunto por causa da antiga relação conturbada entre Ludmilla e Anitta, fez questão de negar qualquer rivalidade. A dançarina afirmou que segue como musa, que ama a escola e que sua presença nunca esteve condicionada à escolha da nova rainha. Foi mais um ruído que a própria noite tratou de diminuir.
Uma coroa, muitas camadas
Seria muito fácil contar essa história apenas pelo brilho. Anitta chegou. Anitta sambou. Anitta chorou. Anitta foi coroada. Tudo isso aconteceu mas seria pouco. A noite teve uma travesti que abriu caminho para as rainhas de bateria há 50 anos entregando uma coroa. Teve Exu abrindo simbolicamente outra estrada. Teve uma artista pop revisitando suas raízes enquanto uma escola prepara um desfile sobre voltar ao passado para construir o futuro.
Teve uma cantora cercada de fãs dizendo que quem precisa aprová-la é a comunidade. Teve samba. Teve moda. Teve show. Teve história. E teve uma coisa que dinheiro, fama ou seguidores não conseguem fabricar: significado.
A coroa colocou Anitta oficialmente à frente da bateria da Grande Rio. O que aconteceu ao redor dela deixou claro que a noite queria falar de algo maior. E realmente falou. Anitta chegou ao posto que toda menina criada sob as raízes de um subúrbio carioca, envolto no samba e com os pés ligados ao chão queria chegar. Como ela mesma diz em 90% das suas apresentações “Acreditem nos seus sonhos que tudo é possível”.