Titãs, Paralamas, Marina Lima, Frejat, Fernanda Abreu e novas vozes se encontram no C6 no Rock para celebrar a geração que transformou a música brasileira nos anos 1980
Rita Lee e Cazuza não foram escolhidos apenas como homenageados de um festival. Os dois funcionam como pontos de ligação entre artistas que transformaram o rock brasileiro nos anos 1980 e intérpretes que continuam carregando essa influência. Liberdade, comportamento, crítica social, desejo e inconformismo atravessam suas obras e ajudam a explicar por que aquelas canções permanecem vivas quatro décadas depois.
Realizado nos dias 22 e 23 de agosto, no Parque Ibirapuera, em São Paulo, o C6 no Rock tornou-se o cenário para esse encontro. A primeira noite terminou com uma homenagem a Rita Lee, enquanto Cazuza será celebrado no encerramento deste domingo. Ao redor dos dois, nomes como Titãs, Paralamas do Sucesso, Marina Lima, Blitz, Ira!, Plebe Rude, Paulo Ricardo, Frejat e Fernanda Abreu reconstroem parte da história do rock nacional.
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Rita Lee e Cazuza e a geração que colocou o rock no centro do país
A noite de sábado foi encerrada por “Meu Sonho É Ser Imortal”, espetáculo criado por Beto Lee para percorrer diferentes fases da trajetória de Rita Lee. Mais do que reunir sucessos, a apresentação evidenciou como a artista ampliou os limites do rock e ajudou a redefinir o espaço ocupado pelas mulheres na música brasileira.
Alice Caymmi, Baby do Brasil, Catto, Fernanda Abreu, Letrux, Marina Sena, Miranda Kassin e Sandra Sá dividiram o palco para interpretar uma obra marcada por liberdade, humor e provocação. A escolha de artistas com estilos e trajetórias distintas mostrou que a influência de Rita não pertence a uma única geração.

Com direção musical de Danilo Santana e direção artística de Otavio Juliano, o espetáculo passou pelo período de Rita com Os Mutantes, pela fase roqueira do Tutti Frutti e pelos sucessos construídos ao lado de Roberto de Carvalho. Cada momento revelou uma artista que soube transformar comportamento, feminilidade e independência em música popular.
Beto Lee também participou do show dos Titãs, acompanhando Branco Mello, Sérgio Britto e Tony Bellotto na apresentação de “Cabeça Dinossauro”. Sua presença nos dois momentos criou uma das conexões mais simbólicas do encontro: o filho de Rita celebrando a mãe e, ao mesmo tempo, dividindo o palco com outra instituição do rock nacional.

Cazuza transformou inquietação em poesia popular
Se Rita Lee levou irreverência, liberdade e humor ao centro da música brasileira, Cazuza transformou amores, excessos, conflitos e inconformismo em uma poesia reconhecida por diferentes gerações. Sua obra ultrapassou o rock e passou a ocupar um espaço permanente na cultura popular do país.
“Todo Amor que Houver Nessa Vida”, espetáculo que encerra o C6 no Rock neste domingo, reúne artistas ligados diretamente à trajetória do compositor e intérpretes influenciados por sua escrita. Arnaldo Antunes, Frejat, Johnny Hooker, Leo Jaime, Leoni, Lobão e Maria Gadú foram escolhidos para revisitar diferentes momentos de sua carreira.
Frejat representa a ligação mais direta com os anos de Barão Vermelho. Leoni e Lobão também pertencem à geração que conviveu e criou ao lado de Cazuza, enquanto Arnaldo Antunes, Maria Gadú e Johnny Hooker mostram como sua influência alcançou outras épocas e diferentes linguagens musicais.
A banda será formada por João Barone, Davi Moraes, Rodrigo Tavares e Mauro Berman. Liminha assina a direção musical, enquanto Rafael Dragaud responde pela direção artística. A formação reforça a proposta de tratar a obra de Cazuza como algo vivo, capaz de receber novas interpretações sem perder sua intensidade.
A geração que colocou o rock no centro do país
Ao redor de Rita Lee e Cazuza, o encontro recupera nomes que ajudaram a transformar o rock brasileiro em um fenômeno de comportamento e comunicação. Durante os anos 1980, aquelas bandas não apenas ocuparam rádios, programas de televisão e grandes palcos: elas passaram a falar diretamente sobre a vida urbana, a política e as mudanças vividas pela juventude.
A Plebe Rude representa a força do rock de Brasília. Philippe Seabra e André X, acompanhados por Clemente Nascimento e Marcelo Capucci, revisitaram “O Concreto Já Rachou”. O álbum de 1986 revelou músicas como “Até Quando Esperar” e “Proteção”, levando para o disco as inquietações de um país que retomava a democracia.
Paulo Ricardo recuperou “Rádio Pirata Ao Vivo”, trabalho que transformou o RPM em um dos maiores fenômenos comerciais da música brasileira. “Louras Geladas”, “Olhar 43”, “Revoluções por Minuto”, “Rádio Pirata” e “London, London” ajudam a dimensionar o alcance popular conquistado pelo grupo naquele período.
Os Titãs voltaram a “Cabeça Dinossauro” com Branco Mello, Sérgio Britto e Tony Bellotto, acompanhados por Beto Lee, Mário Fabre e Alexandre de Orio. O disco reuniu peso, crítica e provocação em músicas como “Polícia”, “Homem Primata”, “Bichos Escrotos” e a faixa-título.
Já Herbert Vianna, Bi Ribeiro e João Barone revisitaram “Selvagem?”, álbum que consolidou a identidade dos Paralamas do Sucesso. Ao aproximar rock, reggae, música africana e referências brasileiras, o trio construiu um repertório capaz de tratar a desigualdade e a realidade urbana sem abandonar a força do pop.

Foto: Reprodução/Instagram @c6norock
Ira! e Blitz traduzem diferentes faces dos anos 1980
Nasi e Edgard Scandurra conduzem o Ira! na apresentação de “Vivendo e Não Aprendendo”. O disco consolidou a banda no rock paulista com músicas como “Envelheço na Cidade”, “Dias de Luta” e “Flores em Você”, combinando inquietação urbana, conflitos afetivos e as incertezas do amadurecimento.

Reprodução/Instagram @oficialira
A Blitz, liderada por Evandro Mesquita, recupera “As Aventuras da Blitz”, de 1982. O álbum levou ao mercado uma mistura original de rock, teatro, diálogos e humor, presente em faixas como “Você Não Soube Me Amar”, “Ela Quer Morar Comigo” e “Mais Uma de Amor (Geme Geme)”.
A participação de Fernanda Abreu cria outro reencontro importante. Depois de cantar na homenagem a Rita Lee, a artista volta ao palco com a banda na qual iniciou sua carreira. O momento conecta o começo de sua trajetória à artista solo que posteriormente ajudaria a transformar o pop brasileiro.
Legião Urbana ressurge pelas mãos de Dado e Bonfá
Dado Villa-Lobos e Marcelo Bonfá, integrantes da formação clássica da Legião Urbana, retomam “Dois” ao lado do cantor André Frateschi. Lançado em 1986, o álbum ajudou a transformar Renato Russo em uma das vozes mais reconhecidas de sua geração.
“Tempo Perdido”, “Eduardo e Mônica”, “Índios” e “Quase Sem Querer” fizeram com que experiências particulares ganhassem dimensão coletiva. Ao falar sobre juventude, relações, escolhas e passagem do tempo, a Legião Urbana construiu uma obra que continuou sendo descoberta por quem nem sequer havia nascido durante os anos 1980.

A presença de Dado Villa-Lobos e Marcelo Bonfá preserva a ligação com a gravação original, enquanto André Frateschi assume a missão de interpretar um repertório inseparável da voz de Renato Russo. O encontro não tenta substituir o vocalista, mas reafirmar a permanência de suas composições.
Marina Lima reencontra Liminha e Lobão
Marina Lima retorna a “Fullgás”, álbum de 1984 que misturou pop, rock, new wave e elementos eletrônicos. “Pra Começar”, “Difícil”, “Me Chama” e a faixa-título consolidaram a cantora como uma das artistas mais modernas e sofisticadas de sua geração.
A apresentação reúne Marina, Liminha e Lobão, músicos que participaram da construção do disco original. Com direção de Monique Gardenberg, o show recupera uma sonoridade urbana que dialogava com o pop internacional sem perder sua identidade brasileira.
Liminha e Lobão também aparecem na homenagem a Cazuza, enquanto João Barone passa do palco dos Paralamas para a banda do tributo. Essas conexões ajudam a mostrar que a geração dos anos 1980 não era formada por trajetórias isoladas. Os músicos participavam dos mesmos discos, criavam juntos e atravessavam as carreiras uns dos outros.

Novas vozes mantêm esse legado em movimento
A presença de Marina Sena, Alice Caymmi, Letrux, Catto, Johnny Hooker e Maria Gadú impede que as homenagens sejam tratadas apenas como exercícios de nostalgia. São artistas que construíram identidades próprias, mas que reconhecem em Rita Lee e Cazuza caminhos abertos para falar sobre liberdade, corpo, desejo, comportamento e afetividade.
Baby do Brasil, Sandra Sá, Fernanda Abreu, Leo Jaime, Leoni, Lobão, Frejat e Arnaldo Antunes representam diferentes pontos de contato com aquela cena. Alguns acompanharam de perto a transformação do rock brasileiro; outros levaram seus códigos para o pop, a música negra, a poesia e novas possibilidades de interpretação.
Ao colocá-los lado a lado, o encontro mostra que o legado dos anos 1980 não permanece vivo apenas porque suas músicas continuam conhecidas. Ele sobrevive porque novos artistas ainda encontram nessas obras uma linguagem para compreender o presente.
O álbum como memória de uma geração
O C6 no Rock funciona como cenário para recuperar oito discos importantes: “O Concreto Já Rachou”, “Rádio Pirata Ao Vivo”, “Cabeça Dinossauro”, “Selvagem?”, “Vivendo e Não Aprendendo”, “As Aventuras da Blitz”, “Dois” e “Fullgás”.
Dos oito trabalhos, seis foram lançados em 1986 e completam 40 anos em 2026. Ao serem apresentados integralmente, os álbuns recuperam faixas menos conhecidas e a narrativa pensada originalmente pelos artistas, indo além das músicas que permaneceram nas rádios e nos repertórios tradicionais.
Com curadoria de Hermano Vianna, Leonardo Lichote e Marcus Preto, o projeto usa o formato de festival para contar uma história maior. No centro dela estão artistas que ajudaram o Brasil a encontrar novas maneiras de falar sobre si mesmo.
Rita Lee e Cazuza simbolizam essa transformação, mas não estão sozinhos. Ao redor deles existe uma geração inteira de músicos, compositores e intérpretes que mudou a linguagem da música nacional e um novo grupo de artistas disposto a manter essa história em movimento.