Paraibana que levou forró, xote, baião e frevo aos grandes palcos, cantora celebra a data com uma obra que atravessa gerações e mantém o Nordeste no centro da MPB

Elba Ramalho chega aos 75 anos é uma celebração de uma das trajetórias mais importantes da música brasileira. A paraibana completou a idade na última segunda-feira, 17 de agosto, cercada pela família e por amigos que fazem parte de sua história. Natural de Conceição, no Sertão da Paraíba, a cantora levou forró, xote, baião e frevo às rádios, à televisão e aos grandes palcos do país.

Mais de quatro décadas após o lançamento de seu primeiro álbum, a artista permanece como uma das grandes intérpretes do Brasil. Seu repertório reúne sucessos como “Bate Coração”, “Banho de Cheiro”, “De Volta pro Aconchego”, “Ai que Saudade de Ocê” e “Chão de Giz”. São músicas que continuam presentes em festas, shows e encontros familiares, ligando diferentes gerações pela memória e pelo afeto.

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Elba Ramalho celebra os 75 anos cercada pelos filhos, familiares e amigos em uma noite marcada por música e afeto – Foto: Reprodução/Instagram @elbaramalho

Elba Ramalho 75 anos: uma trajetória que começou na Paraíba

Elba Maria Nunes Ramalho nasceu em 17 de agosto de 1951, em Conceição, no Vale do Piancó. Ainda criança, mudou-se com a família para Campina Grande, cidade que teve papel importante em sua formação. Foi na Paraíba que ela começou a se aproximar da arte, participando de corais, montagens de teatro e apresentações culturais.

Em 1968, integrou o grupo feminino As Brasas, inicialmente como baterista. A experiência mostrou desde cedo uma artista que não ficaria presa a uma única função. Elba cantava, atuava, tocava e ocupava o palco com uma energia que, anos depois, se tornaria uma de suas principais marcas.

Na década de 1970, mudou-se para o Rio de Janeiro e passou a trabalhar com teatro e música. Atuou como vocalista em apresentações de Alceu Valença e integrou diferentes montagens teatrais. A formação como atriz ajudou a construir uma intérprete que não apenas canta: Elba transforma cada música em uma cena, usando o corpo, o olhar, os figurinos e a emoção para contar histórias. Os primeiros passos de sua trajetória estão registrados no Dicionário Cravo Albin da Música Popular Brasileira

“O Meu Amor” abriu caminho para uma nova estrela

Um dos momentos decisivos ocorreu em 1978, quando Elba participou da montagem original de “Ópera do Malandro”, de Chico Buarque. Ao lado de Marieta Severo, interpretou a canção “O Meu Amor”. A força do dueto chamou a atenção do público e do mercado musical, abrindo caminho para que a paraibana investisse definitivamente na carreira de cantora.

No ano seguinte, ela lançou “Ave de Prata”, seu primeiro álbum. O disco apresentou ao Brasil uma artista de voz forte, repertório cuidadoso e profundo diálogo com compositores nordestinos. Participaram do trabalho nomes como Dominguinhos, Zé Ramalho, Geraldo Azevedo, Sivuca, Jackson do Pandeiro e Robertinho do Recife.

Em maio de 2026, a Assembleia Legislativa da Paraíba aprovou o reconhecimento de “Ave de Prata” como Patrimônio Histórico e Cultural do estado. A homenagem reforça a importância do álbum para a música paraibana e para a valorização da cultura nordestina em todo o país. A decisão foi divulgada pela própria Assembleia Legislativa da Paraíba

Elba Ramalho em registro de “Ave de Prata” (1979), álbum que marcou sua estreia na carreira fonográfica – Foto: Divulgação

O sucesso nacional e a força de seus grandes clássicos

A popularidade cresceu no início dos anos 1980. “Bate Coração” ganhou as rádios em 1981, enquanto o álbum “Alegria”, lançado em 1982, ampliou sua projeção com músicas como “Banho de Cheiro”. O disco vendeu mais de 300 mil cópias e colocou Elba entre as artistas mais populares daquele período.

Nos anos seguintes, a cantora continuou unindo forró, xote, baião, frevo, maracatu, canções românticas e influências do pop. Em vez de limitar sua música a um único gênero, mostrou que a cultura nordestina podia conversar com diferentes sonoridades sem perder suas raízes.

“De Volta pro Aconchego”, composta por Dominguinhos e Nando Cordel, tornou-se um dos maiores símbolos dessa trajetória. A gravação ganhou projeção nacional ao entrar na trilha da novela “Roque Santeiro”, em 1985. A canção transformou a saudade de casa e das próprias origens em um sentimento reconhecido por brasileiros de todas as regiões.

Uma intérprete que aproximou grandes compositores do público

Elba também se destacou pela capacidade de escolher repertórios e dar nova vida às canções. Ao longo da carreira, gravou obras de Luiz Gonzaga, Dominguinhos, Zé Ramalho, Geraldo Azevedo, Chico Buarque, Nando Cordel, Vital Farias, Chico César, Lenine, Alceu Valença e muitos outros.

Na voz da cantora, composições ligadas à cultura nordestina chegaram a um público amplo sem perder sotaque, ritmo ou identidade. Ela ajudou a apresentar autores, histórias e sons do Nordeste a ouvintes que talvez não tivessem contato com esse universo. Ao mesmo tempo, transitou por baladas, samba, rock, música latina e outros estilos, mostrando sua versatilidade.

Essa capacidade de reunir diferentes mundos também apareceu em “O Grande Encontro”. Lançado em 1996, o projeto colocou Elba ao lado de Alceu Valença, Geraldo Azevedo e Zé Ramalho. O espetáculo se tornou um marco ao apresentar parte importante do cancioneiro nordestino com destaque, respeito e alcance nacional.

Elba Ramalho dividiu o palco com Alceu Valença, Geraldo Azevedo e Zé Ramalho no projeto “O Grande Encontro”, lançado em 1996 – Foto: Divulgação

A representatividade de uma mulher nordestina

A presença de Elba Ramalho na música brasileira vai além dos números e dos sucessos. Em um mercado durante muito tempo concentrado no eixo Rio–São Paulo, ela transformou suas raízes paraibanas em força artística e colocou o Nordeste no centro da cena, sem tratar essa cultura como algo menor ou distante.

Elba ocupou espaços importantes mantendo o sotaque, a energia e as referências de sua origem. Sua trajetória ajudou a enfrentar a visão limitada que muitas vezes reduzia a música nordestina apenas ao período das festas juninas. Em sua obra, o forró, o frevo, o baião e o xote aparecem como partes essenciais da música popular brasileira.

Elba Ramalho 75 anos é uma celebração de uma das trajetórias mais importantes da música brasileira.
Elba Ramalho durante apresentação no Galo da Madrugada, considerado o maior bloco de Carnaval do mundo, no Recife, em Pernambuco – Foto: Reprodução/Instagram @elbaramalho

Sua força também está na forma como ocupa o palco. Elba sempre apresentou uma mulher intensa, livre, colorida e dona da própria voz. Essa postura fez dela uma referência para outras artistas nordestinas que passaram a se reconhecer nos grandes palcos e a defender suas identidades sem precisar abandonar suas origens.

Uma obra que permanece viva

A importância de Elba pode ser medida pela permanência de suas músicas. Um levantamento divulgado pelo Ecad⁠ aponta que a artista possui 1.137 gravações cadastradas no banco de dados da instituição.

“De Volta pro Aconchego” foi a música com a participação de Elba mais executada no Brasil nos últimos cinco anos. Na sequência aparecem “Ai que Saudade de Ocê”, “Chão de Giz”, “Entre o Céu e o Mar”, “Bate Coração” e “Banho de Cheiro”. O resultado mostra que seu repertório permanece vivo muito além da época em que essas canções foram lançadas.

Elba também recebeu reconhecimento internacional. A cantora venceu duas vezes o Grammy Latino, com os álbuns “Qual o Assunto Que Mais Lhe Interessa?” e “Balaio de Amor”. Mais tarde, voltou a ser indicada à premiação com outros trabalhos, reforçando a continuidade de uma carreira que nunca deixou de produzir, experimentar e visitar suas raízes.

Uma celebração cercada de música e afeto

Para comemorar os 75 anos, Elba reuniu os quatro filhos Luã, Maria Clara, Maria Paula e Maria Esperança, familiares, músicos e amigos. A noite contou com um sarau e teve convidados como Alceu Valença, Lucy Alves, Mestrinho, Toni Garrido, Karinah e Lúcia Veríssimo.

Elba Ramalho celebra os 75 anos ao lado dos quatro filhos: Luã, Maria Clara, Maria Paula e Maria Esperança – Foto: Reprodução/Instagram @elbaramalho

Nas redes sociais, a artista agradeceu o carinho recebido e compartilhou registros da comemoração. Alceu Valença, Zé Ramalho, Geraldo Azevedo e Zeca Pagodinho estiveram entre os nomes que publicaram homenagens para a cantora.

Alceu Valença e Mestrinho cantam ao lado de Elba Ramalho durante o sarau que celebrou os 75 anos da artista – Foto: Reprodução/Instagram @elbaramalho

Aos 75 anos, Elba Ramalho não representa apenas uma carreira de sucesso. Representa a presença de uma mulher nordestina que transformou suas origens em linguagem universal. Sua voz atravessou décadas, levou a cultura de sua terra a diferentes países e permanece ligada à memória afetiva do Brasil. Elba não apenas canta o Nordeste: ela ajudou a mudar o lugar que o Nordeste ocupa na música popular brasileira.

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